quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O meu turno

Sentado, soturno
Penso na vida e nos outros, em mim noutra perspectiva, na minha relação com as pessoas e o porquê de me relacionar com certas ditas.

Sentado, soturno
Olho em meu redor e observo a tão contraditória indiferença e tédio em relação à animada música que salta tão sincopadamente das simpáticas colunas
Não param
E eu não paro de estar sentado, soturno

Sentado, sortudo
Não sei bem porquê

Esperem

Sentado, não sortudo
Por me importar tanto e ser tão racional
Ser tão anormal
Segundo uma norma que só serve para me pregar rasteiras

Se eu sangro dos joelhos
A culpa não é minha
É só o meu turno

domingo, 24 de agosto de 2014

Sinestesia

Este cheiro ensurdecedor que me aquece
Tenta dar resposta à minha prece
Tenta dar sentido à minha vida
Tenta encontrar a ovelha perdida

Se a procuro, não aparece
Se me deixo disso, se me esquece
Vem ela perfazer as cem
Não me faz falta mais ninguém

Este cheiro ensurdecedor que me arrefece
Tenta tornar-se uma benesse
Tenta tornar-me mais do que sou
Tenta guiar para onde vou

Ou me ajuda ou me distrai
Nem me importa quando vai
Mas se volta faz questão
De me arrancar o coração

O cheiro ensurdecedor não me aquece nem me arrefece
Nem me cegava se escolhesse
A opção à direita
Quem nem sequer se respeita
Pau que nasce torto, tarde ou nunca se endireita

Não sei se o cheiro ensurdecedor
É sinestesia ou não
Se for só metáfora
Tenho mal o título
Tenho mal todo o capítulo
Faz-me falta a diáspora

Por vezes, sinto que o cheiro ensudecedor me acalenta
Normalmente não tolero pêlo na venta
Mas abro uma exceção

Beijinho no ombro

Exponho a faceta que não tenho
Aquela que desdenho
Sentir de facto

Guardo todo o meu empenho
Para tornar-me num estranho
E sentir-me um fardo

Se chorar baba e ranho
Neste sítio mundano
Chamem ajuda
Internem-me um ano
Agarrem num pano
E amordacem-me

Esforço-me sem razão
Para não ser eu
Quando podia tanto esforço ser canalizado para ser um eu bom, verdadeiro e pleno

Um dia faço isso e passo às gerações vindouras
Com um exemplo a seguir
Não na mesma recta, mas numa paralela

Se de mim um dia só restar escombros
Não vai faltar beijinhos nos ombros

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mão de vaca e canja de galinha

Em casa dorme-se
Lá fora faz frio
Cá dentro faz mais

Chateia não saber
O sabor sobre a soberba santa
O sabor que sobe se souber
Que fazer com qualidade tanta

O sabor se bem que salgado
Saciaria a sede que se sente

Não me espanta nada
Não dar o braço a torcer
Ficar na corrida em último
Não querer quebrar o cúbito
Ficar com o coração áspero
Não querer quebrar o úmero
Deixar em paz a rosa de gládio
Não querer desligar o rádio
Não dar o carpo ao manifesto

Denegrir o gesto que precede
Vários outros aprazíveis
Inesquecíveis
Improváveis

Chateia ser eu

Que achas?